Novembro, 1995
Coração é terra que ninguém manda.
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Textos

Será que foi um encontro com Deus?

 
Eu estava no terminal de ônibus no centro de Recife, tomando uma água, depois de um dia extremamente cansativo. Meus pensamentos estavam totalmente fora de controle, meu corpo, minha mente, minha alma, estavam tão pesados. Eu só olhava tudo a minha volta, como se não pertencesse aquele lugar. De repente vejo um senhor, meados 57 anos vindo em minha direção, mancando muito da perna esquerda, com as roupas sujas, um chapéu preto e bolsa rasgada de lado. Continuei sem dá atenção a nada, até ele sentar ao meu lado e puxar assunto.

- Ah, eu estou tão cansado. Muitas coisas acontecerão não é?

Eu me arrepiei inteira e respondo. - De fato, um ano marcante pra falar a verdade.

Pensei que o assunto ia ser encerrado ali, mas ele continuou.

- Moça, você está triste, mas não fique assim. Olhe para você.
Olhe o que você é hoje. Existem muitos lobos em pele de cordeiro. Mas, Deus é contigo... Se você pegar na mão dele, Ele pega na sua. Se você abraçar, Ele te abraça, mas diferente de todo mundo, Ele é o único que nunca vai desistir de você. Repita comigo: (Eu estou aqui, porque sou o senhor teu Deus todo poderoso e eu sou contigo).


Eu repito com a voz rouca, querendo chorar e ele prossegue:

- Você é muito esquentada, parece que tem pimenta ao invés de sangue nas veias, se acalme. Vá cuidar da sua saúde! Você está nova, aproveite. Olhe para mim, olhe minhas pernas. Isso foi  um acidente de carro, quebrei a perna, fraturei costelas, quebrei a mandíbula e rasguei a garganta. Olhe aqui as cirurgias e cicatrizes.
Eu deveria estar morto e na hora sabe o que eu fiz quando me vi preso nas ferragens? Apenas pensei: 
(Deus, que seja feita tua vontade e nunca a minha e dormir). Pensei que era meu fim, e hoje conheci você. Eu trabalho com tecnologia. Tudo que envolve celular, informática, eu mexo. Olhe aqui meu material de trabalho. E você não deu nada por mim quase agora não é? É assim mesmo, as aparências enganam. Quer anotar meu número, caso seu celular quebre?

- Nossa! Profunda a sua história e fico feliz que o senhor superou. Adoraria anotar, mas deixei meu celular em casa. Fui assaltada esses dias e prefiro não arriscar a ser assaltada de novo.

- Ah claro, você reagiu. Você reagi a tudo, não faça isso. Bens materiais se compram, a vida não. Vou ficar aqui esperando seu ônibus com você!

- Tudo bem, fique a vontade! Respondi ainda chocada e sem reação.

Ficamos ali com o silêncio reinando sobre nós, olhando as pessoas de longe, esperando nossos ônibus. Minutos depois, meu ônibus chega.

- O senhor é muito gentil e obrigada pelas palavras profundas que me disse hoje. Espero que o senhor melhore das dores e que seu ônibus chegue logo também. Preciso atravessar e pegar o meu, mas se cuide! Até breve. 

Ele não me disse nada, apenas sorriu e olhou no fundo dos meu olhos, parecia olhar o fundo da minha alma. Me deu um aperto de mãos e continuou lá. Eu atravesso a rua correndo e fico na fila, esperando minha vez de subir no ônibus. Ao olhar pra trás, vi que ele sumiu. Imediatamente, me arrepiei inteira, fui sentindo uma necessidade de chorar, meu corpo tremia bastante. Fiquei procurando ele e nada de encontrar.

(É impossível. Não é distante um lugar do outro. Ele mancava bastante, seria impossível sair correndo. Não tem mais nenhum ônibus aqui, só o meu. Todas as pessoas que estavam aqui, já estão acomodadas nesse ônibus. Agora só restam os guardas e as barracas de comida. Cadê aquele senhor?) 

Controlei meus pensamentos e fui subindo no ônibus, procurando por ele em todos os lugares possíveis e nada. Comprei mais uma garrafa de água, tomei ainda tremendo muito e sem acreditar no que aconteceu. As lágrimas foram molhando o meu rosto, e eu senti que deveria mesmo chorar. Enfim, o ônibus começa a sair do terminal e fui acompanhando toda a tragetória de volta pra casa, bastante pensativa. Logo eu, que sempre quis ter um encontro com Deus, acho que acabei de ter um hoje.
Intensidades
Enviado por Intensidades em 28/02/2018
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